NewsletterAgosto 2026

Uma casa que
não se esconde

No Apartamento Casa Branca, a paleta deixa de ser acabamento para participar da arquitetura, organizar ambientes e traduzir a personalidade de quem vive ali.

Sala de jantar com mesa e cadeiras de palhinha, parede amarela, estante branca e piso de tacos de madeira

Cor não precisa entrar em um projeto como a última camada. Pode começar antes: ajudando a definir atmosferas, estabelecer relações entre espaços, enfatizar volumes e construir diferentes percepções dentro de uma mesma casa.

Sala de estar com sofá vermelho em L, parede de tijolos brancos coberta de quadros e tapete listrado

No Apartamento Casa Branca, reforma completa de um apartamento em São Paulo, essa foi uma das ferramentas que conduziram o projeto. Os moradores não buscavam uma casa neutra, e o uso da cor foi incorporado à arquitetura justamente para que os ambientes pudessem assumir identidades próprias sem perder a relação entre si.

Corredor de entrada com nicho azul-marinho que vira banco, tapete listrado e estante branca Detalhe do nicho azul-marinho da entrada, com banco, espelhos redondos e sapateira

Logo na entrada, um azul profundo estabelece uma transição clara entre a rua e a casa. Na área social, o vermelho ganha protagonismo e convive com a madeira, obras de arte, mobiliário e tapetes listrados. Em outros pontos, as tonalidades mudam novamente: o azul-claro aparece na marcenaria da cozinha, o verde-sálvia chega ao berçário e o quarto do casal recebe outra interpretação do azul.

Não existe, portanto, uma única cor que atravesse o apartamento e produza uma unidade imediata. A unidade está justamente na maneira como as diferenças foram articuladas.

Sala de jantar com mesa redonda, cadeiras de madeira, plantas pendentes e sala de estar ao fundo

A cor organiza relações.

Usar uma paleta ampla não significa distribuir tonalidades aleatoriamente pela casa. Cada escolha precisa responder à escala, à luz, ao uso e aos elementos que já participam de determinado ambiente.

No Casa Branca, a cor aparece tanto em grandes superfícies quanto em intervenções pontuais. Um nicho azul-marinho se transforma em banco de leitura. No corredor, uma prateleira vermelha abriga livros e peças garimpadas. A marcenaria colorida participa da composição dos ambientes e, em alguns momentos, estabelece contrapontos com a madeira natural.

Sala com sofá vermelho, parede-galeria de quadros e cortinas claras Cozinha com marcenaria de madeira e armários azul-claro

Mais do que diferenciar cômodos, essas intervenções ajudam a criar percursos e pontos de atenção. Há momentos de maior intensidade e outros de pausa. A casa não é percebida de uma só vez: ela vai se revelando conforme é atravessada.

Uma arquitetura capaz de receber histórias.

A personalidade do apartamento também vem do encontro entre o projeto e aquilo que os moradores já traziam consigo.

Arte, livros, objetos, peças de diferentes procedências e mobiliário não foram tratados como elementos a serem acomodados depois da arquitetura pronta. Eles participam do espaço e encontram lugar em uma estrutura pensada para receber uma casa em permanente construção.

Sala de estar com sofá vermelho, luminárias de piso e mesa lateral preta sobre tapete listrado Estante com vaso de tulipas, bonecas russas, luminária laranja e sofá em forma de lábios vermelhos

Esse aspecto é especialmente importante em uma reforma residencial. Projetar não significa apagar o que veio antes para estabelecer uma imagem completamente nova. Muitas vezes, significa criar novas relações entre repertórios, objetos e modos de viver que já existem.

Cozinha com parede amarela coberta de pratos decorativos, ilha de mármore e marcenaria de madeira

No Casa Branca, a cor ajuda justamente a fazer essa costura. Em vez de produzir ambientes excessivamente controlados ou uma composição que precisa permanecer intacta, o projeto admite sobreposições, mudanças e novas histórias.

Detalhe de armário rosa com portas de vidro canelado junto à janela Quarto com cabeceira e lambri azul, roupa de cama amarela e criado-mudo de madeira

Cada ambiente encontra a própria voz.

Do vermelho da sala ao azul do quarto, passando pelo amarelo da cozinha e pelo verde-sálvia do berçário, os ambientes não obedecem à mesma fórmula. E não precisam.

O que mantém a casa coesa não é a repetição, mas a intenção por trás das escolhas.

Para nós, é aí que a cor se torna arquitetura: quando deixa de apenas revestir uma superfície e passa a interferir na experiência do espaço, na relação entre os ambientes e na maneira como uma casa expressa quem vive nela.

Apartamento Casa Branca.
Arquitetura e interiores: Arkitito Arquitetura.
Fotos: Deia Soares.

Uma casa pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Por que deveria ter uma cor só?