Uma casa que
não se esconde
No Apartamento Casa Branca, a paleta deixa de ser acabamento para participar da arquitetura, organizar ambientes e traduzir a personalidade de quem vive ali.

Cor não precisa entrar em um projeto como a última camada. Pode começar antes: ajudando a definir atmosferas, estabelecer relações entre espaços, enfatizar volumes e construir diferentes percepções dentro de uma mesma casa.

No Apartamento Casa Branca, reforma completa de um apartamento em São Paulo, essa foi uma das ferramentas que conduziram o projeto. Os moradores não buscavam uma casa neutra, e o uso da cor foi incorporado à arquitetura justamente para que os ambientes pudessem assumir identidades próprias sem perder a relação entre si.

Logo na entrada, um azul profundo estabelece uma transição clara entre a rua e a casa. Na área social, o vermelho ganha protagonismo e convive com a madeira, obras de arte, mobiliário e tapetes listrados. Em outros pontos, as tonalidades mudam novamente: o azul-claro aparece na marcenaria da cozinha, o verde-sálvia chega ao berçário e o quarto do casal recebe outra interpretação do azul.
Não existe, portanto, uma única cor que atravesse o apartamento e produza uma unidade imediata. A unidade está justamente na maneira como as diferenças foram articuladas.

A cor organiza relações.
Usar uma paleta ampla não significa distribuir tonalidades aleatoriamente pela casa. Cada escolha precisa responder à escala, à luz, ao uso e aos elementos que já participam de determinado ambiente.
No Casa Branca, a cor aparece tanto em grandes superfícies quanto em intervenções pontuais. Um nicho azul-marinho se transforma em banco de leitura. No corredor, uma prateleira vermelha abriga livros e peças garimpadas. A marcenaria colorida participa da composição dos ambientes e, em alguns momentos, estabelece contrapontos com a madeira natural.

Mais do que diferenciar cômodos, essas intervenções ajudam a criar percursos e pontos de atenção. Há momentos de maior intensidade e outros de pausa. A casa não é percebida de uma só vez: ela vai se revelando conforme é atravessada.
Uma arquitetura capaz de receber histórias.
A personalidade do apartamento também vem do encontro entre o projeto e aquilo que os moradores já traziam consigo.
Arte, livros, objetos, peças de diferentes procedências e mobiliário não foram tratados como elementos a serem acomodados depois da arquitetura pronta. Eles participam do espaço e encontram lugar em uma estrutura pensada para receber uma casa em permanente construção.

Esse aspecto é especialmente importante em uma reforma residencial. Projetar não significa apagar o que veio antes para estabelecer uma imagem completamente nova. Muitas vezes, significa criar novas relações entre repertórios, objetos e modos de viver que já existem.

No Casa Branca, a cor ajuda justamente a fazer essa costura. Em vez de produzir ambientes excessivamente controlados ou uma composição que precisa permanecer intacta, o projeto admite sobreposições, mudanças e novas histórias.

Cada ambiente encontra a própria voz.
Do vermelho da sala ao azul do quarto, passando pelo amarelo da cozinha e pelo verde-sálvia do berçário, os ambientes não obedecem à mesma fórmula. E não precisam.
O que mantém a casa coesa não é a repetição, mas a intenção por trás das escolhas.
Para nós, é aí que a cor se torna arquitetura: quando deixa de apenas revestir uma superfície e passa a interferir na experiência do espaço, na relação entre os ambientes e na maneira como uma casa expressa quem vive nela.
Apartamento Casa Branca.
Arquitetura e interiores: Arkitito Arquitetura.
Fotos: Deia Soares.
Uma casa pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Por que deveria ter uma cor só?